art ensemble of chicago

art ensemble of chicagoA cidade de Chicago foi sempre um importante centro de jazz e um pródigo celeiro de músicos. Foi por lá que passaram na década de vinte, ‘King Oliver, Louis Armstrong, Earl Hines, Bix Beiderbecke, Franck Trumbauer e Bud Freeman. Pois foi também em Chicago, na década de 60, que nasceu, cresceu e se formou uma das mais criativas e características escolas do ‘avant-garde’ do jazz. O ‘avant-garde’, também designado por ‘avant-jazz’, é um sub-gênero do jazz, muito em voga nos anos 60, caracterizado pela improvisação e pelos elementos tradicionais do jazz. O ‘avant jazz’ surgiu na segunda metade dos anos 50, através do pianista Cecil Taylor, o saxofonista Ornette Coleman e o tecladista Sun Ra. Um dos expoentes deste gênero foi John Coltrane, nos anos 60.

Em 1965, o educador e multi-instrumentista Muhal Richard Abrams, o baixista Malachi Favors, o pianista Jodie Christian, o baterista Steve McCall e outros jovens jazzmen de Chicago criaram a ‘Association for the Advancement of Creative Musicians’ (AACM), com intuito de educar jovens músicos e criar uma música de nível artístico elevado, enaltecendo sempre a importância da criatividade. Em 1967, o melhor conjunto de jazz que emergiu da associação foi o ‘Art Ensemble of Chicago’. Criado pelos saxofonistas Joseph Jarman e Roscoe Mitchell, o trompetista Lester Bowie, o contrabaixista Malachi Favors e o baterista Famoudou Don Moye que logo se juntou ao grupo, o ‘Art Ensemble of Chicago’ é um dos nomes mais expressivos do ‘avant-garde’ e do ‘free jazz’.

muhal richard abrams‘Free Jazz’ ou ‘New Thing’, como foi chamado mais tarde, é um estilo de jazz criado por músicos afro-americanos como John Coltrane e Rashied Ali. Originário do bebop, o ‘free jazz’ propunha uma liberdade de improvisação musical total do músico e de uma diferenciação de atitude musical da música produzida pelos anglo-americanos. Vários músicos internacionais seguiram esta tendência durante as décadas de 60 e 70, principalmente aqueles que ideologicamente se identificavam com a questão do Movimento dos Direitos Civis nos EUA àquela época. Incluem-se músicos como o argentino Gato Barbieri, os ingleses John McLaughlin e Tony Oxley, os alemãos Peter Brötzmann e Theo Jörgensmann e o brasileiro Hermeto Pascoal entre os mais representativos no mundo.

Com uma extensa discografia, o ‘Art Ensemble of Chicago’ possui histórico de militância política desde sua origem. O estilo vanguardista do grupo revolucionou a cena do jazz da época, notável pela sua integração de estilos musicais que abrangem toda a história do jazz e para o seu multi-instrumentalismo, especialmente o uso do que chamou de 'pequenos instrumentos' que vão além da linha tradicional do jazz. De acordo com seu posicionamento, faz questão de mencionar que não faz shows ou performances, mas sim projeções. Com profundas raízes africanas sob o lema ‘a grande música negra - da antiguidade ao futuro', outra preocupação é com a herança cultural: o grupo sempre se apresenta com máscaras e roupas africanas. Essas características se combinam para tornar o desempenho do 'Art Ensemble' tanto um espetáculo visual quanto musical. Para eles, tradição e inovação caminham juntas.

art ensemble of chicago

Famoudou Don Moye, Roscoe Mitchell, Lester Bowie, Joseph Jarman, Malachi Favors

Com muito humor, lirismo, respeito às ‘brass bands’ de New Orleans, orgulho das contribuições de Charlie Parker e John Coltrane, e das divagações de Miles Davis; o ‘Art Ensemble of Chicago’ provou ser o mais notável dos grupos cooperativos de ‘free jazz’, não só pela qualidade individual de seus membros, mas também pela originalidade e sofisticação de sua proposta, uma proposta contemporânea de investigação arqueológica e antropológica da história do jazz. Com a morte do trompetista Lester Bowie, em 1999, e o afastamento do saxofonista Joseph Jarman, o grupo foi reduzido a um trio. Em 2004, sofreu mais uma perda: a de Malachi Favors, vítima de câncer. Após sua morte, o trompetista Corey Wilkes e o baixista Jaribu Shahid passaram a trabalhar com o ‘Art Ensemble’ como músicos convidados.

art ensemble of chicago

art ensemble of chicago - variations sur un theme de monteverdi (II)


A maioria dos álbuns do grupo foi gravada na Europa, dois são considerados os mais representativos, obras-primas sem precedente na história do jazz: ‘Fanfare for The Warriors’ e ‘Nice Guys’. Em ‘Fanfare’, o pianista Muhal Richard Abrams dá ao grupo uma contribuição relevante em termos de clima percussivo e de dissonância.

art ensemble of chicago - fanfare for the warriors (1973)    art ensemble of chicago - nice guys (1978)

Fanfare for the Warriors (1973)    |    Nice Guys (1978)

Fanfare for the Warriors
01. Illistrum 02. Barnyard Scuffel Shuffel 03. Nonaah 04. Fanfare for the Warriors 05. What's to Say 06. Tnoona 07. The Key

Nice Guys
01. Ja 02. Nice Guys 03. Folkus 04. 597-59 05. Cyp 06. Dreaming Of The Master

art ensemble of chicago - the third decade (1985)    art ensemble of chicago - coming home jamaica (1998)

The Third Decade (1985)    |    Coming Home Jamaica (1998)

The Third Decade
01. Prayer For Jimbo Kwesi 02. Funky AECO 03. Walking In The Moonlight 04. The Bell Piece 05. Zero 06. Third Decade

The Third Decade
01. Grape Escape 02.Odwalla Theme 03.Jamaica Farewell 04. Mama Wants You 05. Strawberry Mango 06. Villa Tiamo 07. Malachi 08. Lotta Colada

‘The Meeting’ é um tributo ao trompetista Lester Bowie, falecido em novembro de 1999. O álbum foi gravado pelos membros sobreviventes, o saxofonista Roscoe Mitchell, o baixista Malachi Favors e o baterista Don Moye com o compositor e multi-instrumentista Joseph Jarman que havia se afastado do grupo e que se aposentou no início dos anos 90. A ausência de Lester Bowie é sentida e para crédito da banda, eles não fizeram nenhuma tentativa para preencher o vazio em cada gravação. Cada membro tem um período prolongado de solo antes da banda se juntar em um último movimento que reúne todos os temas variados. ‘The Meeting’ é um retrato do ‘Art Ensemble’, como indivíduos que se juntam para formar um vínculo inseparável e com o compromisso de criação da música. O ritmo é lento e proposital. Uma reunião gloriosa.

art ensemble of chicago - the meeting (2003)

The Meeting (2003)

Tracklist
01. Hail We Now Sing Joy 02. It's the Sign of the Times 03. Tech Ritter and the Megabytes 04. Wind and Drum 05. The Meeting 06. Amin Bidness 07. The Train To Io

Em 1970, os membros do ‘Art Ensemble of Chicago’ estavam vivendo como expatriados em Paris. O grupo havia recentemente se expandido para um quinteto com a adição do baterista e percussionista Don Moye quando eles foram convidados pelo diretor de cinema israelense Moshe Misrahi para compor a trilha sonora de seu filme, ‘Les Stances um Sophie’. A música nunca foi usada no filme, mas, felizmente, foi gravada. O resultado foi um dos registros marcantes do florescente avant-garde e, simplesmente, considerado um dos melhores álbuns de jazz de sempre. Em duas das faixas, o ‘Art Ensemble’ é acompanhado pela vocalista Fontella Bass, na época, esposa do trompetista Lester Bowie. O disco foi gravado em Paris. As experimentações vanguardistas aparecem em ‘Theme de Celine’ e ‘Theme Libre’. Mas, a música mais marcante é ‘Theme de Yoyo’, que tornou-se um clássico instantâneo, uma peça surpreendente que conseguiu o status legendário da melhor fusão de funk e jazz avant-garde já registrado. O mix é realmente perfeito. As demais peças cobrem uma vasta gama de estilos de jazz com a mesma beleza e imaginação, e mostra a banda absorvendo novas linguagens como nas duas variações feitas para o tema do compositor italiano Claudio Monteverdi. ‘Les Stances a Sophie’ dá continuidade à tradição de filmes franceses que receberam tratamento sonoro por parte de grupos de jazz, a começar por ‘Ascenseur pour L'Echafaud’ de 1957, filme de Louis Malle com trilha sonora de Miles Davis. (leia + sobre 'Ascenseur pour L'Echafaud' e baixa o disco.)

art ensemble of chicago - les stances a sophie (1970)

Les Stances a Sophie (1970)

Tracklist
01. Thème De Yoyo 02. Thème De Céline 03. Variations Sur Un Thème De Monteverdi (I) 04. Variations Sur Un Thème De Monteverdi (II) 05. Proverbes (I) 06. Thème Amour Universal 07. Thème Libre 08. Proverbes (II)

10 comentários:

Edison Junior disse...

Opa! Que ótimo isso! Vou conferir. Beijos e boa semana!

Alberto Bezerra disse...

Embora todas as postagens aqui pubicadas sejam ótimas, esta veio a calhar; já havia baixado alguns albuns da banda (acho que ainda ano passado), mas nem cheguei a ouvir, pois não passei p/ cd. Hoje, fui procurar algo do Weather Report (que ainda não conheço) e resolvi passar por aqui e, embora não tenha mencionado o Art Esemble of Chicago entre aqueles artistas cujo não aparecimento neste blog me escandalizava, não há dúvida de que elesm se inserem nesse grupo, assim como todas a principais bandas de Fusion e similares, como o já citado Weather Report, o The Headhunters, o V.S.O.P Quintet e mesmo o Return to Forever que não gostei muito.

EM suma, congratulações por mais uma belíssima postagem.

Ps. falar em criação do Free Jazz e não mencionar Ornette Coleman é um crime que beira o imperdoável. Não fosse a menção a ele no final do primeiro parágrafo do texto, pensaria que tens algo contra ele (que não consta no blog). Cabe salientar que consegui baixar alguns discos dele, mas não o "Free jazz", o qual precisei comprar.

Alberto Bezerra disse...

Por ventura, conheces o Ninety Miles? Foi-me apresentado recentemente (só ouvi duas músicas); trata-se dum "latin-jazz", um jazz com pitadas de música cubana. Em plena atividade e de ótima qualidade.

mara* disse...

Querido Junior, a minha semana foi de lascar...Somente hoje pude relaxar e assim, me dedico agora aos amigos... Beijo.

mara* disse...

Há tanto de free jazz! Impossível resumir tudo em poucas e raquíticas postagens. Falta-me tempo para me aprofundar em pesquisas, o pouco que sei é como admiradora do jazz. Free Jazz está associado à inovações e experimentações, que poucos gostam. Free jazz está fortemente associado a Ornette Coleman e Cecil Taylor e posteriormente a John Coltrane. Ornette Coleman, um dos grandes inovadores do jazz moderno levou a sua música ao extremo, até onde mesmo músicos altamente progressistas se recusaram a seguir. Coleman foi até hostilizado pelo saxofonista Sonny Rollins e o baterista Max Roach, que saiu do palco, quando Coleman começou a tocar. Coleman, desde tenra idade, sempre mostrou as marcas de um espírito livre. Portanto, Coleman exige a minha alma. Assim como outros que aqui estão ausentes, não por descuido.

Um abraço Alberto.

mara* disse...

A influência cubana é evidente em muitas músicas de jazz. Este álbum, o Ninety Miles, ouvi faz tempo, não gosto de vibrafone, acho que por isso não ouvi mais. Vou ouví-lo novamente, quem sabe....

Alberto Bezerra disse...

Estou perplexo e algo triste com esta informação. Roach e Rollins fizeram isso? Como soubestes disso? Ñ estou duvidando de ti, apenas gostaria da fonte para mencioná-la quando for escrever sobre o assunto. Pretendo redigir ainda este ano uma resenha sobre o Pithecanthopus do Mingus e quem sabe UM dia resenho o Free jazz do Ornette. Gosto não só do vanguardismo dele, mas tbm de seu timbre "sujo", bem diferente de Miles Davis e Chet Baker.

Direi algo mais sobre o free jazz quando postares algo sobre.

Quanto ao Ninety Miles, só ouvi no you tube, pois ñ achei p/ baixar e o cd tá meio caro por aqui.

mara* disse...

Muito parecido com o Universo, o milagre do jazz está em sua variedade. O jazz é infinito e apenas existem duas grandes categorias: o bom jazz e o jazz ruim.

A fonte da informação é ‘Contemporary Black Biography’, uma série de vários volumes que fornecem perfis biográficos. Publicados pelo 'Gale Group', uma editora educacional para escolas, bibliotecas públicas e universitárias.

Um abraço Alberto

Alberto Bezerra disse...

Demorei a ver seu comentário no meu blog (pois faz tempo que não passava por lá), mas agora estou ciente do atentado e isso só me impele a divulgar ainda mais o "Pintando música".

Depois comento melhor, passei só p/ marcar presença neste (re)nascimento.

Postado ao som de Ella Fitzgerald =D

mara* disse...

Muito obrigada Alberto. Continuo. Respondido ao som de 'The Clansman'' de Iron Maiden..

Wake alone on the hills
With the wind in your hair
With a longing to feel
Just to be free
It is right to believe
In the need to be free
It's a time when you die
And without asking why


Um grande abraço

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