miles davis

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Entre inspiração e devastação, entre talento e mito, entre jazz e cultura pop, o trompetista, compositor e bandleader de jazz norte-americano Miles Davis é considerado um dos mais influentes músicos do século XX. Por mais de 40 anos, desde a Segunda Guerra Mundial até a década de 1990, Miles Davis reinventou o jazz. Além de participar do bebop, foi o fundador do cool jazz. Enquanto o bebop tinha como ponto forte a composição e o improviso, o cool jazz caracterizou-se por formações que permitiam arranjos orquestrais. Miles participou também do jazz modal, do jazz-rock e do fusion, ou acid jazz. Seu som ao trompete, puro, macio e sem vibrato, emitido freqüentemente com o uso da surdina, e seu fraseado conciso e despojado tornaram-se marcas registradas. Sua personalidade difícil, também. Sua carreira, iniciada dentro do bebop, apresentou uma fase brilhante já em 1948, com a formação da célebre ‘Miles Davis-Capitol Orchestra’, onde o genial arranjador Gil Evans escreveu obras-primas sofisticadas que davam condições para a expressividade de Miles. A colaboração Miles-Evans continuou ao longo dos anos 50. A partir de 1949, nascia com Miles o estilo cool, bastante apropriado à sua maneira intimista de tocar. De 1956 em diante liderou um quinteto/sexteto que, através de suas várias formações, entrou para a história do jazz.

miles davis quintet 1957Os talentos envolvidos se revezavam, inicialmente o quinteto contava com o saxofonista John Coltrane, o pianista Red Garland, o contrabaixista Paul Chambers e o baterista Philly Joe Jones. Com a entrada do sax alto Cannonball Adderley, o conjunto se transformou em sexteto. Em 1959 Red Garland foi substituído por Bill Evans e Wynton Kelly, que se revezavam ao piano, e Jones cedeu o lugar a Jimmy Cobb, e o grupo gravou um dos discos mais cult do jazz de todos os tempos, ‘Kind of Blue’. Paralelamente ao trabalho com o quinteto/sexteto, Miles com a colaboração de Gil Evans grava em 1958 e 1960, duas obras-primas absolutas com orquestra: ‘Porgy and Bess’ e ‘Sketches of Spain’. Em 1964 surgiu uma formação inteiramente nova do sexteto, com George Coleman ao sax tenor, Herbie Hancock ao piano, Ron Carter ao contrabaixo e o brilhante adolescente Tony Williams à bateria. Em 1965 a chegada do talentoso saxtenorista e compositor Wayne Shorter dá consistência ainda maior ao grupo. No final dos anos 60, Miles se encaminha para mais uma renovação estética, começando a fazer experiências com a fusão entre jazz e rock.

O jazz-rock, do qual Miles estava se aproximando gradativamente nasceu efetivamente com o revolucionário álbum duplo de 1969, ‘Bitches Brew’. Durante os anos 70, Miles continuou realizando experiências com a integração de linguagens, renovando seus conjuntos com músicos pouco conhecidos, afastando-se do jazz, mesmo do jazz-rock, e aproximando-se do funk até do hip-hop. Embora as opiniões se dividam acerca das obras desse período, o som de Miles continuou inconfundível e poderoso. Entre 1976 e 1981, Miles se afastou dos palcos por causa do consumo de drogas, particularmente heroína. Várias de suas doenças, entre problemas pulmonares, circulatórios e diabetes foram atribuídos, por seus amigos, a esse vício. Ele mesmo admitiu seu estado precário de saúde, em sua última entrevista, em 1991. Morreu três meses depois, de infarto, pneumonia e deficiência respiratória.

miles davisMiles Dewey Davis Jr nasceu em uma família rica em Alton, no estado de Illinois. Seu pai, Dr. Miles Davis II era dentista. A mãe, Cleota Mae (Henry) Davis, queria que seu filho aprendesse a tocar piano, pois, ela era uma hábil pianista de blues, mas manteve isso escondido de seu filho. Os estudos musicais de Miles começaram aos treze anos, quando seu pai lhe deu um trompete novo e providenciou algumas aulas com um trompetista local, Elwood Buchanan. Miles revelou que a escolha de seu pai por um trompete, foi feita propositalmente para irritar sua mulher, que não gostava do som do instrumento. Elwood Buchanan ressaltou a importância de tocar o instrumento sem vibrato, e Miles recebia palmadas na mão toda vez que usava vibrato. E assim Davis levaria seu timbre limpo por toda sua carreira. Aos dezesseis anos, Davis já era membro de um círculo de músicos e trabalhava profissionalmente quando não estava na escola. Aos dezessete, passou um ano tocando no grupo de Eddie Randle, os ‘Blue Devils’. Uma face pouco conhecida de Miles Davis foi a de artista plástico, embora tenha levado exposições bem recebidas pela crítica na Europa, em Nova York e no Japão.

miles davis - bye bye blackbird


‘Kind Of Blue’ (50th Anniversary) é um álbum comemorativo de 50 anos de lançamento do original. A influência de ‘Kind of Blue’ na música, abrangendo gêneros do jazz ao rock e a música clássica, tem levado críticos a reconhecer este como um dos mais influentes álbuns de todos os tempos. Foi, de fato, um salto pioneiro no jazz modal. O trompetista foi acompanhado por uma banda excepcional que inclui John Coltrane (tenor saxofone), Julian Cannonball Adderley (alto saxofone), o pianista Bill Evans (substituído por Wynton Kelly em uma faixa), o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb. A faixa de abertura, ‘So What’, em particular, se tornou um clássico do jazz. Em 2002, ‘Kind Of Blue’ foi uma das 50 gravações escolhidas para o Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso Americano.

miles davis - kind of blue (50th anniversary)

Kind of Blue (50th Anniversary) (2008)
CD 1    CD 2

Tracklist CD 1
01. So What 02. Freddie Freeloader 03. Blue In Green 04. All Blues 05. Flamenco Sketches 06. Flamenco Sketches (Alternate Take) 07. Freddie Freeloader (Studio Sequence 1) 08. Freddie Freeloader (False Start) 09. Freddie Freeloader (Studio Sequence 2) 10. So What (Studio Sequence 1) 11. So What (Studio Sequence 2) 12. Blue In Green (Studio Sequence) 13. Flamenco Sketches (Studio Sequence 1) 14. Flamenco Sketches (Studio Sequence 2) 15. All Blues (Studio Sequence)

Tracklist CD 2
01. On The Green Dolphin Street 02. Fran-Dance 03. Stella By Starlight 04. Love For Sale 05. Fran-Dance (Alternate Take) 06. So What

Acordes, estruturas melódicas e ritmos da música tradicional espanhola são encontrados em ‘Sketches of Spain’. A incursão de Davis na música tradicional espanhola foi inspirada por ‘Joaquin Rodrigo's Concierto de Aranjuez’, uma obra escrita em 1939, que se apóia fortemente na tradição da guitarra flamenca e música árabe.

Miles Davis - Sketches of Spain (1997)

Sketches of Spain (50th Anniversary) (1997)
CD 1    CD 2

Tracklist CD 1
01. Concierto de Aranjuez (Adagio) 02. Will O' The Wisp 03. The Pan Piper 04. Saeta 05. Solea 06. Song Of Our Country

Tracklist CD 2
01. The Maids Of Cadiz 02. Concierto De Aranjuez (Adagio) 03. Concierto De Aranjuez (Adagio) (part one, alternate take) 04. Concierto De Aranjuez (part two, alternate take) 05. Concierto De Aranjuez (Adagio) (alternate ending) 06. The Pan Piper (take 1) 07. Song Of Our Country (take 9) 08. Song Of Our Country (take 14) 09. Saeta (full version of master) 10. Concierto De Aranjuez (Adagio) (Live) 11. Teo

O álbum ‘Bitches Brew’ continuou a experimentação de Davis com instrumentos elétricos, como o piano elétrico e guitarra. Davis rejeitou os ritmos do jazz tradicional em favor de um estilo mais solto, do rock com influências de improvisação e recebeu uma resposta mista, devido ao estilo pouco convencional do álbum e som revolucionário. Mais tarde, ‘Bitches Brew’ ganhou reconhecimento como um dos maiores álbuns de jazz e um progenitor do gênero jazz rock, assim como uma grande influência no rock e músicos de funk.

miles davis - bitches brew (1969)

Bitches Brew (1969)
CD 1    CD 2

Tracklist CD 1
01. Pharaoh's Dance 02. Bitches Brew

Tracklist CD 2
01. Spanish Key 02. John McLaughlin 03. Miles Runs The Voodoo Down 04. Sanctuary 05. Feio

Miles Davis - The Essential Miles Davis (2001)

The Essential Miles Davis (2001)
CD 1    CD 2

Tracklist CD 1
01. Now's The Time 02. Jeru 03. Compulsion 04. Tempus Fugit 05. Walkin' 06. 'Round Midnight 07. Bye Bye Blackbird 08. New Rhumba 09. Generique 10. Summertime 11. So What 12. The Pan Piper 13. Someday My Prince Will Come

Tracklist CD 2
01. My Funny Valentine 02. E.S.P. 03. Nefertiti 04. Petits Machins 05. Miles Runs the Voodoo Down 06. Little Church 07. Black Satin 08. Jean Pierre 09. Time After Time 10. Portia

10 comentários:

Miradouro Cinematográfico disse...

Mara, meu mergulho de cabeça nos jazz coincidiu com minha descoberta de seu (excelente) blog. Assim, foi inevitável que a sessão que mais visitei/visito dele seja a dedicada a este estilo. Contudo, não posso deixar de apontar algumas ausências escandalosas que além de me incomodarem, deixaram-me deveras intrigado. Duas das principais são Thelonious Monk e Ornette Coleman. Há ainda outras duas, as quais, entretanto, atribuo um motivo claro: Dizzy Gillespie e John Coltrane. Minha hipótese acerca da ausência deste dois últimos é a seguinte: vc gosta em demasia de Bird e Miles Davis e por isso resolveu boitocar Dizzy e Coltrane enquanto supostamente rivais daqueles.

mara* disse...

Adoro o jazz meu caro amigo Miradouro, e espero ter tempo para cultivar todos os seus gêneros no Pintando Música, desde os velhos e sempre amados standards até a linguagem moderna. Apesar das minhas preferências, de amar a insuperável e minha eterna musa Billie Holiday, o complexo e sofisticado Charles Mingus e as atmosferas melancólicas de Chet Baker, jamais boicotaria Dizzy Gillespie, um dos mentores do bebop, um verdadeiro embaixador da música e muito menos o mais cultuado saxtenorista do jazz, John Coltrane. Apenas falta-me tempo para agrupá-los em termos de importância musical e histórica, mas com o tempo, e se o FBI não resolver punir outros sites hospedeiros, todos os grandes do jazz estarão aqui.

Beijão

Alberto Bezerra disse...

Como meu comentário demorou um pouco p/ ser aprovado, pensei que o teinhas boicotado tbm. Evidentemente, tudo isso é uma grande provocação, mas fazê-lo sem ter intimidade foi arriscado.

Como meu mergulho no jazz vai completar apenas 1 ano, passo longe de poder discutir de igual p/ igual contigo, mas uma coisa é certa: Mingus não só é meu favorito (no máximo outros podem se igualar a ele no meu gosto), mas tbm é bastante cultuado por muita gente que conheço, embora não seja tão famoso quanto Miles ou Coltrane.

Quanto a Chet Baker e Billie Holliday, penso que são gostos muito pessoais seus; dele talvez eu goste mais ao conhecer melhor; ela subiu no meu conceito recentemente, mas como sou mais bebop, prefiro - ao menos a princípio - Vaughan e, sobretudo, Fitzgerald.

Quanto aos pares Bird/Gillespie, Miles/Coltrane, como em ambos os casos prefiro os segundos e aqui só constam os primeiros, não seria possível conter a provocação.

Se me permites, tenho uma imensa lista a pedidos; esto plenamente ciente (antes mesmo de vc responder o comentário) que o problema do tempo é central. Contudo, algumas ausências soam realmente escandalosas, como a do Hermeto Pascoal. E fiquei bastante satisfeito em ver que postasse algo do Charlie Christian, pois não havia conseguido muita coisa dele.

Por hora, é só. P/ não perder o costume, agradeço-lhe =)

mara* disse...

A liberação dos comentários tardam, mas não falham. Realmente o meu tempo é escasso, e como é essencial para as pesquisas sobre música, principalmente a mim que sou perfeccionista e gosto do que faço no Pintando, ele me faz falta.

E, para piorar, ainda tive o revés de perder links e mais links e assim tive que corrigí-los e ainda continuo nesta tarefa.

Mas, os luminares do jazz aqui estarão. Assim que eu terminar de postar a coletanea de blues 'ABC of the blues' e a excelente de jazz 'the ultimate jazz archive' que conta com 168 CDs, eu me dedicarei a cada um deles individualmente...

Infelizmente a vida de Charlie Christian foi curta e portanto, não tem muita coisa dele.

Um abraço e volte.

Alberto Bezerra disse...

Ainda bem que além de perfeccionista, és psersistente!

(Postado ao som do Sonny Rollings, que estou baixando daqui =)


Ps. da primeira vez que baixei o Spain (ainda ano passado), deu erro numa das músicas do cd 2 na hora de extrair (descompactar). Vou baixar novamente e se persistir, aviso aqui.

mara* disse...

Persisto! Avise-me por favor...

Alberto Bezerra disse...

Baixei o Spain novamente e tudo OK, porém tenho uma pergunta que não deixa de ser uma reclamação: como faço para achar a postagem sobre o Art Ensemble of Chicago? Procurei no índice de jazz e não aperece (eu a acessava pela pág principal, mas agora que outras postagens a sucederam, ela não mais aperece).

mara* disse...

Olá Alberto! Coloquei o link do Art Ensemble no índice de jazz...tinha esquecido...sorry.

Bjs

Alberto Bezerra disse...

Agora posso falar com certa propriedade: embora Miles Davis EM GERAL não seja dos meus favoritos do jazz (mas é meu favorito do/da fusion), ele pode ser considerados dos pilares do jazz não só pela qualidade, como tbm pela versatilidade. Dai eu "chio": kd o "In a silent way" e o (pouco conhecido, mas excelente) "Tribute to Jack Johnson"? Para poupar vosso trabalho, posto um link da discografia completa deste rapaz (embora alguns discos estejam corrompidos dá p/ garimpar muita coisa, inclusive as versões completas em 4 discos do "Bitches brew" e a em 5! do "Tribute to Jack Johnson", que tbm é fusion).


http://rappamelo.com/2010/05/miles-davis-albums/

mara* disse...

Desculpe o atraso em liberar o coment.
Miles também não é um dos meus favoritos.
Meu próximo passo será garimpar o link presenteado.
Vejamos se tenho sorte, atualmente, é raro encontrar links funcionando.

Um abraço.

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