sinead o'connor

Não há muitos artistas da música pop que tenham a força de caráter para expressar opiniões e tirar as pessoas do seu habitual estado de sonolência mental. Só houve algumas ocasiões em que uma opinião expressa por um pop star suscitou manifestações da multidão pedindo o 'linchamento'. A famosa citação de John Lennon sobre os 'Beatles' de que eram mais populares do que Jesus Cristo e a atitude de Sinead O'Connor ao rasgar uma foto do então Papa João Paulo ao cantar no ‘Saturday Night Live’ a música ‘War’ de Bob Marley, substituindo na letra a palavra racismo por abuso de crianças, como protesto contra o abuso sexual da Igreja Católica.

Apesar da tão propalada liberdade de expressão, a tentativa do FBI para impedir que John Lennon fixasse residência nos EUA, bastou para calá-lo, tempos depois uma arma nas mãos de um louco o silenciou para sempre. Quanto à Sinead O'Connor, sua música permaneceu emocional e dolorosamente honesta como sempre foi, e continuou a ser uma voz forte que condenava a Igreja Católica e sua cumplicidade no abuso de crianças. No momento que O'Connor rasgou a foto o divórcio na Irlanda era ilegal porque a Igreja Católica proibiu e os direitos das mulheres eram os mesmos de quando a Bíblia foi escrita.

sinead o'connorImpetuosa, Sinead O'Connor bateu de frente com os estereótipos padrões dos anos 90, ao se colocar não como um símbolo sexual, mas como uma artista séria. Aos 43 anos, não exibe mais a cabeça raspada, os cabelos são curtos, já grisalhos nas têmporas, mas sua voz permanece surpreendentemente pura com capacidade de subir à estratosfera e, em seguida, descer a um sussurro sem perder a intensidade emocional. Continua sendo uma das maravilhas da música pop, renascida ao lidar com sua alma perturbada. O'Connor nasceu em Dublin, Irlanda, e sua infância foi bastante traumática. Nunca escondeu os problemas familiares, que incluiu uma separação escandalosa em um país profundamente católico e uma mãe alcoólatra que morreu em um acidente de carro. Expulsa da escola católica, foi presa por furto e mandada para um reformatório. Aos 15 anos de idade, enquanto cantava um cover da música ‘Evergreen’, de Barbra Streisand, numa festa de casamento, ela chamou a atenção de Paul Byrne, o baterista da banda irlandesa ‘In Tua Nua’. Depois de assinar um contrato em 1985, mudou-se para Londres. No ano seguinte, ela estreou seu primeiro trabalho na trilha sonora do filme ‘The Captive’. O primeiro álbum levou o nome de ‘The Lion and The Cobra’ em referência ao ‘Salmo 91’. Produzido em 1987, com dois singles que viraram hist nas rádios, ‘Mandinka’ e ‘Troy’. E manteve a sua postura controversa até o lançamento de ‘I Do Not Want What I Haven't Got’, que alcançou o topo das paradas em 1990. Com o sucesso do single e do vídeo ‘Nothing Compares 2 U’, originalmente composta por Prince, o álbum a projetou como uma estrela pop, no momento em que vivia um romance com o cantor negro Hugh Harris, e continuava a atacar seus adversários políticos.

sinead o'connor

Logo após rasgar a foto do Papa, no show de tributo a Bob Dylan no ‘Madison Square Garden’ em Nova York, foi vaiada assim que subiu ao palco. Transformada em pária da música pop, o seu afastamento seria inevitável. O'Connor mudou-se para Dublin, com intenção de estudar ópera. Em 1994 retornou à música pop com o álbum ‘Universal Mother’, mas sem sucesso apesar da crítica favorável. Em 2003, silenciou vendendo todos os seus instrumentos. Antes do nascimento de seu terceiro filho, no ano seguinte, teve depressão profunda em conjunto com pensamentos suicidas. Ao, voluntariamente, internar-se em um hospital psiquiátrico, recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar. Mesmo com o diagnóstico tardio, O'Connor declarou-se aliviada ao descobrir o que havia de errado com ela.

sinéad o'connor - why don't you do right


O segundo álbum ‘I Don't Want What I Haven't Got’ iniciado por uma versão de uma canção de Prince, a balada ‘Nothing Compares 2 U’, foi reeditado e traz raridades como covers de John Lennon (‘Mind Games’), Cole Porter (‘You Do Something To Me’) e Gregory Isaacs (‘Night Nurse’). Lançado em 2009 nos dá a oportunidade de ouvir não só o álbum original novamente, mas um segundo disco de registros ao vivo e b-sides da época e material inédito.

Sinéad O’Connor - I Do Not Want What I Haven't Got (Deluxe Edition) (2009)

I Do Not Want What I Haven’t Got (2009)
(Deluxe Edition)
CD 1    CD 2

Tracklist
CD 1: 01. Feel So Different 02. I Am Stretched On Your Grave 03. Three Babies 04. The Emperor's New Clothes 05. Black Boys On Mopeds 06. Nothing Compares 2 U 07. Jump In The River 08. You Cause As Much Sorrow 09. The Last Day Of Our Acquaintance 10. I Do Not Want What I Haven't Got
CD 2: 01. Night Nurse (Previously Unreleased) 02. My Special Child 03. Damn Your Eyes 04. Silent Night (Long Version) 05. You Do Something To Me 06. Mind Games (Previously Unreleased) 07. What Do You Want 08. I Am Stretched On Your Grave (Apple Brightness Mix) 09. Troy (Recorded 'Live' In London) 10. I Want Your Hands On Me (Live At Hammersmith Odeon)

‘Am I Not Your Girl?’ é o terceiro álbum de Sinéad O'Connor, e foi dedicado às pessoas da cidade de Nova Iorque, especialmente os sem-abrigo, onde a cantora conheceu em St. Mark's Place.

Sinéad O'Connor - Am I Not Your Girl (1992)

Am I Not Your Girl? (1992)

Tracklist
01. Why Don't You Do Right? 02. Bewitched, Bothered and Bewildered 03. Secret Love 04. Black Coffee 05. Success Has Made a Failure of Our Home 06. Don't Cry for Me Argentina 07. I Want To Be Loved By You 08. Gloomy Sunday 09. Love Letters 10. How Insensitive 11. Scarlet Ribbons 12. Don't Cry for Me Argentina (Instrumental) 13. Sinéad Declaration

sinead o'connor - essential (2011)

Essential (2011)

Tracklist
01. Mandinka 02. Troy 03. I Want Your (Hands On Me) 04. Just Call Me Joe 05. I Am Stretched On Your Grave 06. Three Babies 07. The Emperor’s New Clothes 08. Nothing Compares 2 U 09. Jump In the River 10. Last Day of Our Acquaintance 11. I Do Not Want What I Haven’t Got 12. Success Has Made A Failure of Our Home 13. Don’t Cry for Me Argentina 14. Jerusalem 15. Black Boys On Mopeds

Sinead O'Connor ao rasgar uma foto do então Papa João Paulo

5 comentários:

carol sakurá disse...

Polêmica e um show de voz!

Abs e ótimo fds!

Carol Sakurá

BIPOLARBRASIL disse...

Parabéns pelo blog, já está entre meus favoritos. Sobre a Sinead, no youtube tem uma video de uma entrevista que ela concedeu (não lembro o nome do canal), onde ele conta como é conviver com o transtorno bipolar do humor. É emocionante, vale a pena ver. Eu particularmente gosto muito das músicas dessa artista. Nothing's Compare, minha preferida.

Игорь disse...

Olá Mara

Trouxe uma boa lembrança de volta .

Ela realmente sumiu da mídia ( ao menos da mais popular ).

Este conflictos religiosos, observo de longe . Na verdade não os entendo .

um beijo

glohlopes disse...

Parabéns pela qualidade do blog e, principalmente, pela resenha sobre Sinéad O'Connor. A mídia faz questão de minimizar a importãncia de Sinéad (como artista e como pessoa) e o público-cordeiro cai nessa cilada. Mas ela segue brilhante e fundamental como sempre foi. O texto de vocês é um dos melhores - e mais honestos - a respeito desse gênio da música. Parabéns.

mara* disse...

Eu que agradeço a sua visita Lopes. Eu também como o Игорь observo, perplexa, os conflitos religiosos, principalmente desta seita que um dia tomou o poder dentro do Império Romano, aboliu a liberdade de expressão, e depois juntou cadáveres de 'infiéis', 'hereges' e 'feiticeiras' que seus membros massacraram. Sinéad O'Connor foi mais uma vítima dos que, como aqueles do passado, proclamam que adoram um deus único, um deus do 'amor' e se consideram melhores que o restante da humanidade.

Um abraço e obrigada.

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