george harrison

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Nos tempos de ‘Beatles’, George Harrison sempre foi tímido, tinha menos espaço na banda, vivia na sombra dos enormes egos de John Lennon e Paul McCartney. George tinha sua cota como cantor e autor de incluir apenas umas duas músicas por disco, e ficava em silêncio, apenas procurava aperfeiçoar seu talento como guitarrista e foi diferenciando-se pelo uso elegante da ‘slide guitar’ que produz um som alongado, choroso. Apesar da proibição imposta, George foi conquistando seu espaço com canções cada vez melhores sendo o autor de algumas das mais famosas e belas músicas dos Beatles: a energética ‘Taxman’, que abre o ‘Revolver’, a bela e singela ‘Here Comes the Sun’ e ‘Something’, considerada por Frank Sinatra a mais bela canção de amor dos últimos 50 anos. Ao contrário da violenta morte do excêntrico Lennon, George Harrison morreu discretamente, em 29 de Novembro de 2001, da mesma maneira com que viveu, mais interessado pela vida interior do que pelas atividades mundanas.

george harrisonOlhos escuros, rosto alongado, expressão profunda. Desde criança George Harold Harrison tinha esse ar grave, misterioso, depois realçado pela descoberta da meditação transcendental e pelo encontro definitivo com o misticismo oriental. Introspectivo, normalmente calado, George tinha, no entanto, tiradas que desarmavam o ouvinte, reveladoras de um humor no mínimo peculiar. Quando a polícia deu uma batida em sua casa, ele informou sarcasticamente: 'Sou um cara organizado: guardo as meias na caixa de meias e as drogas na caixa de drogas'. Era tímido também, de uma timidez que podia se confundir com arrogância, mas que, na verdade, escondia boa dose de autoconfiança.

Seus pais o incentivavam moderadamente. O pai, um ex-marinheiro que se tornou motorista de ônibus só para ficar mais perto dos quatro filhos, tinha o mesmo semblante sério do caçula George. A mãe, professora de dança de salão, era mais expansiva e costumava cantar pela casa e ouvir muitos discos, o que influenciou bastante o filho rebelde. Na escola, George desafiava as regras e usava a gravata ao contrário, um topete moldado com muita brilhantina e sapatos de camurça azul, os blue suede shoes do ídolo Carl Perkins. Matava as aulas para fumar nas esquinas e sonhar com o rock’n’roll de Elvis Presley, que ouviu na casa de um amigo. O filme da sua vida estava para começar.

Foi com esse mesmo amigo que começou a tocar violão religiosamente e fundou a sofrível banda ‘The Rebels’, com apenas 14 anos. Chegaram a se apresentar ao vivo, por um caneco de cerveja cada. Segundo o então parceiro Arthur Kelly, George já era capaz de tocar as passagens mais difíceis, tal como os grandes guitarristas da época. Foi nesse momento que conheceu Paul McCartney no ônibus que ia para a escola. Apesar de Paul ser mais velho, ficaram logo muito próximos, até que George foi convidado a assistir uma apresentação dos ‘Quarry Men’. John Lennon, o líder do grupo, não ficou muito impressionado com aquele colegial franzino de olhar espantado. Mas bastou que George tocasse uma música para que o líder se convencesse e o ‘contratasse’. Com o tempo, os ‘Quarry Men’ ganharam asas e tornaram-se os Beatles, fazendo shows todas as noites, a base de entusiasmo, talento e anfetaminas. Foi de George, e não da dupla Lennon e McCartney, a primeira gravação original feita pelos Beatles. Tudo bem que ‘Cry for a Shadow’, gravada na Alemanha, era apenas um exercício instrumental sem importância e que George, então com 18 anos, recebeu uma ajuda de John, mas a gravação valeu como marco.

Se George teve muito a ver com o início criativo do grupo, foi também de sua autoria a música que marcou o fim dos Beatles. ‘I Me Mine’ foi a última gravação feita pela banda, a essa altura (1970) em frangalhos. Paul tentava manter a chama acesa a todo custo; George ressentia-se com a condescendência de Paul; Ringo entediava-se com as constantes discussões; e John não aceitava a rejeição do grupo com relação a Yoko, ele sequer participou dessa última gravação. Ao falar de egoísmo, a letra da canção retratava o espírito perdido do conjunto. Oito dias depois do registro de ‘I Me Mine’, Paul anunciou o fim da banda. Nos pouco mais de dez anos de existência, os Beatles praticamente estabeleceram todos os novos parâmetros do rock e do pop. Dois momentos nesse período parecem ter sido especialmente marcantes para que George começasse a finalmente ganhar voz própria e libertar-se da sombra incômoda dos egos enormes de John e Paul.

Um deles foi quando experimentou LSD pela primeira vez. A experiência transformou sua vida, e parece ter mesmo ‘expandido sua consciência’, como pregavam os teóricos hippies da época. O outro momento foi quando, em 1966, foi com a mulher, a modelo Pattie Boyd, para a Índia, onde ficou hospedado na casa de Ravi Shankar, a quem conhecera numa festa dada pelo diretor e ator Peter Sellers. Iniciaram uma amizade que seria responsável em grande parte pela popularização da cultura indiana no Ocidente. Shankar não apenas lhe ensinou a tocar cítara, como foi decisivo na conversão espiritual do amigo. Foi depois desse encontro iluminador que os Beatles foram à Índia meditar sob os auspícios de Maharishi Maheshi Yogi, um guru de longos cabelos, barbas brancas e sorriso curioso.

george harrison e ravi shankar

George Harrison e Ravi Shankar, famoso músico indiano, tocou no Woodstock junto com grandes mestres da música. É o pai de Norah Jones, famosa artista contemporânea de jazz e de Anoushka Shankar, a quem ensinou a arte do sitar. Ravi foi chamado por George Harrison para tocar cítara em seus últimos momentos.

Antes mesmo de conhecer Shankar, George já havia colocado os sons encantatórios da cítara na gravação de ‘Norwegian Wood’. Tudo muito por acaso: depois de ver alguns músicos indianos nas filmagens de ‘Help!’ (1965), ele resolveu experimentar o instrumento. Comprou um bem barato numa lojinha em Londres e arriscou-se sem manual na posição desconfortável que a cítara exigia. Foi descobrindo as notas e fez de ‘Norwegian Wood’ a primeira música pop com sabor indiano. ‘Within You Without You’, para alguns a melhor faixa do ‘Sgt. Pepper’s’ (1967), para outros a mais deslocada, foi a evolução natural. Com sua melodia sinuosa e conotação filosófica, levava o ouvinte a um breve estado de transe, próximo da meditação transcendental que George tanto praticava.

A ioga, as batas, os incensos e o I-Ching também faziam parte desse novo universo místico de Harrison. Foi quando abriu o livro milenar ao acaso e bateu os olhos na frase ‘gentle weeps’ que teve a inspiração para compor uma de suas melhores canções com os Beatles. A gravação de ‘While My Guitar Gently Weeps’ não foi tão simples, porém. Dos quatro George talvez fosse o mais perfeccionista. Buscava não apenas a beleza harmônica, mas um tipo de revelação através da música. Havia certo descaso com suas composições. Insatisfeito com a gravação, ele insistiu com o produtor George Martin e refez a canção do jeito que queria, incluindo a participação tornada mítica do amigo Eric Clapton.

Essa irredutibilidade, ou personalidade forte, de certa forma rimava com os traços firmes e o jeito introspectivo do músico. Em retrospecto, não parece à toa que George fosse responsável pelo começo simbólico e pelo fim do sonho que embalou todas as gerações a partir de 1961. E que tenha sido também ele, o beatle silencioso, quem fez maior barulho logo após o rompimento, em 1970. O álbum triplo (triplo!) ‘All Things Must Pass’, composto de canções que ele represou ao longo de sua convivência difícil nos Beatles, foi um sucesso absoluto de crítica e público. O single ‘My Sweet Lord’, um mantra de melodia irresistível, foi alçado ao Olimpo do pop, atingindo o primeiro lugar nas paradas de vários países do mundo, inclusive os Estados Unidos. Ápice do envolvimento de George com a espiritualidade indiana, o famoso fraseado de sua guitarra chorosa, que marca a música com a gentileza de um haikai num papiro, parece dirigir-se diretamente a Krishna, mas de forma que todos a ouvissem. A produção de Phil Spector, com uso de coros e baterias, fez com que a música soasse grandiosa sem perder a simplicidade. Talvez venha daí o segredo de George: a forma gentil e sincera de despertar os sentimentos.

E foi com esse espírito que preparou em seguida o grande e emocionante ‘Concerto para Bangladesh’ (1971), país que vinha sendo devastado pela miséria e guerra civil. George chamou os amigos Bob Dylan, Ravi Shankar, Eric Clapton e Ringo Starr, entre muitos outros, e realizou o primeiro concerto beneficente da história, reservando todos os lucros para a Unicef e a causa que tinha abraçado, envolvido com a religião ‘Hare Krishna’ até o fim da vida, e baseado em seus princípios humanitários, George viria a criar a fundação beneficente ‘Material World’. Lançou mais um disco de enorme sucesso, ‘Living in the Material World’ (1973), com outro número 1 nas paradas, ‘Give Me Love’ (Give Me Peace on Earth), e a partir daí sua carreira teve altos e baixos e também uma diversidade de atividades: aprimorou-se na jardinagem zen que praticava, passou a freqüentar corridas de Fórmula 1 e tornou-se produtor cinematográfico, envolvendo-se com o pessoal do ‘Monty Python’. Em 1999, num lance bizarro, sobreviveu às várias facadas de um intruso em sua casa, foi salvo pela segunda mulher, Olívia. Antes mesmo desse incidente quase fatal, ele já vinha combatendo um câncer. (por daniel benevides)

george harrison

Curiosidades

** Segundo o livro ‘The love you make’, escrito por Peter Brown (diretor da NEMS Enterprises, empresa dos Beatles), George, acompanhado da mulher, teria se declarado apaixonado por Maureen Starkey, mulher de Ringo, durante um jantar que reuniu os dois casais. Segundo Peter Brown, George e Maureen tiveram um caso após o incidente, mas ninguém jamais confirmou a história.

dhani harrison**Seu único filho Dhani Harrison é fisicamente tão parecido com George que quando foi realizado o show ‘The concert for George’, Paul McCartney disse que parecia que George estava lá jovem enquanto todos tinham envelhecido.

**Ele usou vários pseudônimos durante sua carreira. Entre eles: Arthur Wax, Carl Harrison, George Harrysong, George O'Hara, Hari Georgeson, Nelson Wilbury e Spike Wilbury.

**Em 2003, ele foi classificado no posto 21 da lista ‘Os 100 melhores guitarristas de todos os tempos’ elaborada pela revista musical ‘Rolling Stone’.

**A canção ‘Something’, totalmente de sua autoria, é a segunda música dos Beatles mais regravada de todos os tempos, atrás apenas de ‘Yesterday’ e a única outra de sua autoria a chegar ao topo das paradas na época dos Beatles, além de ‘For You Blue’, também de sua autoria, que foi single número um em 1970 junto com ‘The Long and Winding Road’.

George Harrison – Let It Roll (2009)

Let It Roll: Songs by George Harrison (2009)

Tracklist
01. Got My Mind Set on You 02. Give Me Love (Give Me Peace On Earth) 03. Ballad of Sir Frankie Crips (Let It Roll) 04. My Sweet Lord 05. While My Guitar Gently Weeps (Live) 06. All Things Must Pass 07. Any Road 08. This Is Love 09. All Those Years Ago 10. Marwa Blues 11. What Is Life 12. Rising Sun 13. When We Was Fab 14. Something (Live) 15. Blow Away 16. Cheer Down 17. Here Comes the Sun (Live) 18. I Don’t Want To Do It 19. Isn’t It a Pity

‘The Concert for George’ foi realizado no ‘Royal Albert Hall’ em Londres em 29 de Novembro de 2002 como um memorial a George Harrison um ano depois de sua morte. A homenagem foi organizado pela viúva de Harrison, Olivia, e o filho, Dhani, e sob a direção musical de Eric Clapton e Jeff Lynne. O arrecadado foi para a ‘Material World Charitable Foundation’.

Concert for George (2002)
(Live at Royal Albert Hall in London)
CD 1    CD 2

Tracklist CD 1
01. Sarve Shaam (traditional prayer includes a dedication by Ravi Shankar)
02. Your Eyes (Anoushka Shankar)
03. The Inner Light (Jeff Lynne – vocal / Anoushka Shankar – sitar)
04. Arpan (Ravi Shankar) by Anoushka Shankar- sitar / Eric Clapton - guitar

Tracklist CD 2
01. I Want to Tell You (Jeff Lynne)
02. If I Needed Someone (Eric Clapton)
03. Old Brown Shoe (Gary Brooker)
04. Give Me Love (Give Me Peace on Earth) (Jeff Lynne)
05. Beware of Darkness (Eric Clapton)
06. Here Comes the Sun (Joe Brown)
07. That’s The Way It Goes (Joe Brown)
08. Taxman (Tom Petty and The Heartbreakers)
09. I Need You (Tom Petty and The Heartbreakers)
10. Handle With Care” (Tom Petty and The Heartbreakers, Dhani Harrison and Jeff Lynne)
11. Aisn’t It a Pity (Billy Preston)
12. Photograph (Ringo Starr)
13. Honey Don’t” (Ringo Starr)
14. For You Blue (Paul McCartney)
15. Something (Paul McCartney and Eric Clapton)
16. All Things Must Pass (Paul McCartney)
17. While My Guitar Gently Weeps (Paul McCartney and Eric Clapton)
18. My Sweet Lord (Billy Preston)
19. Wah-Wah (Eric Clapton, plus a supergroup of guest musicians)
20. I’ll See You in My Dreams (Joe Brown) compositor Gus Kahn

Sabendo que iria morrer, gravou em 2001, com ajuda do único filho, Dhani, um último disco, ‘Brainwashed’, que acabou se tornando um de seus melhores trabalhos. Iluminado por estóica serenidade e até leveza, o CD revela a atitude única de George diante da morte, chega a dar a impressão de que ele canta as músicas sorrindo. Ao fim, ele faz ecoar o mantra: ‘Shiva Shiva Shankara Mahadeva’. Concluído pelo filho Dhani e Jeff Lynne após George sucumbir à longa doença 'Brainwashed' é um lembrete amargo das contradições inumeráveis que fez de Harrison uma figura tão atraente.

George Harrison - Brainwashed (2002)

Brainwashed (2002)

Tracklist
01. Any Road 02. Vatican Blues (Last Saturday Night) 03. Pisces Fish 04. Looking for My Love 05. Rising Sun 06. Marwa Blues 07. Stuck Inside A Cloud 08. Run So Far 09. Never Got Over You 10. Between the Devil & the Deep Blue Sea 11. Rocking Chair in Hawaii 12. Brainwashed

george harrison - all those years ago


4 comentários:

carol sakurá disse...

Yeah...yeah..yeah!

Linda biografia!

Não sabia sobre a autoria de ‘Something’.

Beijão!

gentil carioca disse...

Putz, que blog caprichado!!
Fiquei fã.
Thanks.

Zoltrix disse...

Ola Mara

Seu blog é fantástico, não tem um dia que eu não faça uma visita, parabens.

Em tempo, o arquivo do cd 1 de concert for george está corrompido.

mara* disse...

Olá Zoltrix! Obrigada pela visita e pelo elogio gostoso. Editei o link do CD corrompido, agradeço também o aviso.

beijão

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